Guerra no Médio Oriente
Herança de "toda a humanidade". UNESCO "profundamente preocupada" com destruição de património cultural no Irão
O palácio de Golestan, em Teerão, muitas vezes comparado a Versalhes, uma mesquita histórica e um palácio em Isfahan são alguns dos edifícios históricos que foram danificados durante os recentes ataques israelitas e norte-americanos. A UNESCO declarou estar "profundamente preocupada" com os danos causados ao património cultural iraniano lembrando que esta herança é de todos.
Após os recentes ataques israelitas e norte americanos, a agência para o Património Mundial da ONU, a UNESCO, confirmou que pelo menos quatro dos 29 sítios listados como Património da Humanidade localizados em território iraniano foram afetados.
Entre eles estão o Palácio de Golestan, em Teerão — muitas vezes comparado a Versalhes francesa. A agência indicou ainda à Reuters que uma mesquita histórica e um palácio em Isfahan foram danificados na guerra.
Palácio de Golestan, a Versalhes iraniana
O Palácio de Golestan ou "Palácio do Jardim das Rosas" foi escolhido como a residência real persa e sede do poder pela família Qajar e mostra a introdução de estilos europeus nas artes persas, de acordo com o site da UNESCO. O último Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, realizou aí uma cerimónia de coroação em 1969.
“Nós às vezes até comparamos com o Palácio de Versalhes na França, por exemplo, e sofreu, infelizmente, alguns danos. Não sabemos a extensão do momento. Mas claramente, com as imagens que pudemos receber, podemos confirmar que isso foi afetado”, declarou Lazare Eloundou Assomo, diretor do Centro do Património Mundial.
Fotos do interior do palácio, considerado uma obra-prima da era do Império Cajar, mostraram destroços de vidro esmagado e fragmentos de madeira no chão.
“Nós às vezes até comparamos com o Palácio de Versalhes na França, por exemplo, e sofreu, infelizmente, alguns danos. Não sabemos a extensão do momento. Mas claramente, com as imagens que pudemos receber, podemos confirmar que isso foi afetado”, declarou Lazare Eloundou Assomo, diretor do Centro do Património Mundial.
Fotos do interior do palácio, considerado uma obra-prima da era do Império Cajar, mostraram destroços de vidro esmagado e fragmentos de madeira no chão.
Destroços no monumento classificado como Património Mundial, Palácio de Golestan, depois de ter sido danificado num ataque israelita e norte-americano, em Teerão, a 3 de março de 2026 | Majid Asgaripour/WANA via Reuters
"O primeiro impacto das hostilidades já são visíveis em muitos edifícios classificados como Património Mundial. É alarmante", afirmou Assomo, acrescentando preocupação com outros locais “em Israel, Líbano e em todo o Médio Oriente”.
"Declaração de guerra"
Ismail Baghaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, o Ministério do Património Cultural, Turismo e Artesanato e a media iraniana relataram danos no Palácio Chehel Sotoun após um ataque aéreo ao Escritório do Governador de Isfahan, conduzido pelos EUA e Israel, na segunda-feira à tarde (9 de março).
O Gabinete do Governador provincial de Isfahan está localizado a 150 metros do Palácio Palácio Chehel Sotoun. A Reuters verificou um vídeo a 9 de março de 2026 que mostrava uma nuvem de fumo na direção do edifício governamental.
Destroços no Palácio Chehel Sotoun, em Isfahan | Foto divulgada a 9 de março de 2026, obtida nas redes sociais via Reuters
Nestes ataques, o Palácio Chehel Sotoon, construído no século XVII, foi um dos tesouros mais afetados. Ao redor, na Praça Naqsh e Jahan, janelas e portas dos edifícios próximos ficaram em cacos.
“Isfahan não é uma cidade comum, é um museu sem telhado”, afirmou o governador Mehdi Jamalinejad, que classificou os ataques como uma “declaração de guerra contra uma civilização".
"Um inimigo que não tem cultura não presta atenção a símbolos da culturais de outros. Um país que não tem história não tem respeito por sinais de história. Um país que não tem identidade não dá valor à identidade", acrescentou, citado na publicação britânica The Guardian.
Isfahan era uma das cidades mais importantes da Ásia Central e um ponto-chave na rota comercial da Rota da Seda. A Masjed-e Jame (Mesquita Jameh) tem mais de mil anos e mostra o desenvolvimento da arte islâmica através de 12 séculos. Localizada em Isfahan, corre risco de destruição, sublinham as autoridades.
Isfahan era uma das cidades mais importantes da Ásia Central e um ponto-chave na rota comercial da Rota da Seda. A Masjed-e Jame (Mesquita Jameh) tem mais de mil anos e mostra o desenvolvimento da arte islâmica através de 12 séculos. Localizada em Isfahan, corre risco de destruição, sublinham as autoridades.
Destroços no Palácio Chehel Sotoun resultado do conflito EUA-Israel com o Irão, em Isfahan | Reuters
O local do século XIX, residência Qajar e palco da coroação do Xá Mohammad Reza Pahlavi, apresentou vidros estilhaçados e madeira destruída. Em Isfahan, a Mesquita Jameh — com mais de mil anos — também registou danos, assim como edifícios próximos ao Vale de Khorramabad.
Entretanto, o ministro iraniano Abbas Araghchi criticou a demora da reação da UNESCO, afirmando: “O seu silêncio é inaceitável”, e acusou Israel de “bombardear monumentos históricos iranianos que datam do século XIV”.
Entre os locais afetados está o Castelo de Falak ol Aflak, cujo perímetro foi atingido, destruindo museus adjacentes. “Felizmente, a principal estrutura […] não foi danificada”, reportou Ata Hassanpour.
Na província do Curdistão, as mansões Salar Saeed e Asef Vaziri também sofreram danos.
“A destruição do património cultural é irreversível"
A UNESCO já reagiu numa declaração, onde expressou uma clara preocupação com a proteção de sítios do património cultural perante à escalada da violência no Médio Oriente.
Afirmou ter partilhado as coordenadas de locais culturais com todas os intervenientes na guerra e pediu proteção a “todos os locais de importância cultural e a tudo o que conta a história de todas as civilizações dos 18 países da região”.
Destroços no monumento histórico Palácio de Golestan depois de ter sido danificado num ataque israelita e norte-americano, em Teerão, a 3 de março de 2026 | Majid Asgaripour/WANA via Reuters.
A UNESCO recorda que os bens culturais estão protegidos pelo direito internacional, nomeadamente a Convenção de Haia de 1954 para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, incluindo o seu mecanismo de proteção reforçada, bem como a Convenção de 1972 relativa à Proteção do Património Cultural e Natural Mundial.
O Comité norte-americano do Escudo Azul, uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender a Convenção de Haia, juntou-se à voz da UNESCO e em comunicado alertou que o património iraniano “pertence não apenas ao povo iraniano, mas a toda a humanidade”. Apontou o dedo à atitude dos EUA no conflito realçando que “a destruição do património cultural é irreversível […] Nenhum objetivo militar ou político justifica a destruição intencional ou negligente da herança comum da humanidade”.
O Comité norte-americano do Escudo Azul, uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender a Convenção de Haia, juntou-se à voz da UNESCO e em comunicado alertou que o património iraniano “pertence não apenas ao povo iraniano, mas a toda a humanidade”. Apontou o dedo à atitude dos EUA no conflito realçando que “a destruição do património cultural é irreversível […] Nenhum objetivo militar ou político justifica a destruição intencional ou negligente da herança comum da humanidade”.