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Herança de "toda a humanidade". UNESCO "profundamente preocupada" com destruição de património cultural no Irão

Herança de "toda a humanidade". UNESCO "profundamente preocupada" com destruição de património cultural no Irão

O palácio de Golestan, em Teerão, muitas vezes comparado a Versalhes, uma mesquita histórica e um palácio em Isfahan são alguns dos edifícios históricos que foram danificados durante os recentes ataques israelitas e norte-americanos. A UNESCO declarou estar "profundamente preocupada" com os danos causados ao património cultural iraniano lembrando que esta herança é de todos.

Carla Quirino - RTP /
Destroços do Palácio de Golestan, Património Mundial, depois de ter sido danificado num ataque israelita e norte-americano, em Teerão, a 3 de março de 2026. Majid Asgaripour/WANA via Reuters

Após os recentes ataques israelitas e norte americanos, a agência para o Património Mundial da ONU, a UNESCO, confirmou que pelo menos quatro dos 29 sítios listados como Património da Humanidade localizados em território iraniano foram afetados.

Entre eles estão o Palácio de Golestan, em Teerão — muitas vezes comparado a Versalhes francesa. A agência indicou ainda à Reuters que uma mesquita histórica e um palácio em Isfahan foram danificados na guerra.
Palácio de Golestan, a Versalhes iraniana

O Palácio de Golestan ou "Palácio do Jardim das Rosas" foi escolhido como a residência real persa e sede do poder pela família Qajar e mostra a introdução de estilos europeus nas artes persas, de acordo com o site da UNESCO. O último Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, realizou aí uma cerimónia de coroação em 1969.

“Nós às vezes até comparamos com o Palácio de Versalhes na França, por exemplo, e sofreu, infelizmente, alguns danos. Não sabemos a extensão do momento. Mas claramente, com as imagens que pudemos receber, podemos confirmar que isso foi afetado”
, declarou Lazare Eloundou Assomo, diretor do Centro do Património Mundial.

Fotos do interior do palácio, considerado uma obra-prima da era do Império Cajar, mostraram destroços de vidro esmagado e fragmentos de madeira no chão.


Destroços no monumento classificado como Património Mundial, Palácio de Golestan, depois de ter sido danificado num ataque israelita e norte-americano, em Teerão, a 3 de março de 2026 | Majid Asgaripour/WANA via Reuters

"O primeiro impacto das hostilidades já são visíveis em muitos edifícios classificados como Património Mundial. É alarmante", afirmou Assomo, acrescentando preocupação com outros locais “em Israel, Líbano e em todo o Médio Oriente”.
"Declaração de guerra"

Ismail Baghaei, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, o Ministério do Património Cultural, Turismo e Artesanato e a media iraniana relataram danos no Palácio Chehel Sotoun após um ataque aéreo ao Escritório do Governador de Isfahan, conduzido pelos EUA e Israel, na segunda-feira à tarde (9 de março). 

O Gabinete do Governador provincial de Isfahan está localizado a 150 metros do Palácio Palácio Chehel Sotoun. A Reuters verificou um vídeo a 9 de março de 2026 que mostrava uma nuvem de fumo na direção do edifício governamental.

Destroços no Palácio Chehel Sotoun, em Isfahan  | Foto divulgada a 9 de março de 2026, obtida nas redes sociais via Reuters

Nestes ataques, o Palácio Chehel Sotoon, construído no século XVII, foi um dos tesouros mais afetados. Ao redor, na Praça Naqsh e Jahan, janelas e portas dos edifícios próximos ficaram em cacos. 

“Isfahan não é uma cidade comum, é um museu sem telhado”, afirmou o governador Mehdi Jamalinejad, que classificou os ataques como uma “declaração de guerra contra uma civilização".

"Um inimigo que não tem cultura não presta atenção a símbolos da culturais de outros. Um país que não tem história não tem respeito por sinais de história. Um país que não tem identidade não dá valor à identidade", acrescentou, citado na publicação britânica The Guardian.

Isfahan era uma das cidades mais importantes da Ásia Central e um ponto-chave na rota comercial da Rota da Seda. A Masjed-e Jame (Mesquita Jameh) tem mais de mil anos e mostra o desenvolvimento da arte islâmica através de 12 séculos. Localizada em Isfahan, corre risco de destruição, sublinham as autoridades.

Destroços no Palácio Chehel Sotoun resultado do conflito EUA-Israel com o Irão, em Isfahan | Reuters

O local do século XIX, residência Qajar e palco da coroação do Xá Mohammad Reza Pahlavi, apresentou vidros estilhaçados e madeira destruída. Em Isfahan, a Mesquita Jameh — com mais de mil anos — também registou danos, assim como edifícios próximos ao Vale de Khorramabad.

Entretanto, o ministro iraniano Abbas Araghchi criticou a demora da reação da UNESCO, afirmando: “O seu silêncio é inaceitável”, e acusou Israel de “bombardear monumentos históricos iranianos que datam do século XIV”.

Entre os locais afetados está o Castelo de Falak ol Aflak, cujo perímetro foi atingido, destruindo museus adjacentes. “Felizmente, a principal estrutura […] não foi danificada”, reportou Ata Hassanpour.

Na província do Curdistão, as mansões Salar Saeed e Asef Vaziri também sofreram danos. 
“A destruição do património cultural é irreversível"
A UNESCO já reagiu numa declaração, onde expressou uma clara preocupação com a proteção de sítios do património cultural perante à escalada da violência no Médio Oriente.

Afirmou ter partilhado as coordenadas de locais culturais com todas os intervenientes na guerra e pediu proteção a “todos os locais de importância cultural e a tudo o que conta a história de todas as civilizações dos 18 países da região”.

Destroços no monumento histórico Palácio de Golestan depois de ter sido danificado num ataque israelita e norte-americano, em Teerão, a 3 de março de 2026 | Majid Asgaripour/WANA via Reuters.

A UNESCO recorda que os bens culturais estão protegidos pelo direito internacional, nomeadamente a Convenção de Haia de 1954 para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, incluindo o seu mecanismo de proteção reforçada, bem como a Convenção de 1972 relativa à Proteção do Património Cultural e Natural Mundial.

O Comité norte-americano do Escudo Azul, uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender a Convenção de Haia, juntou-se à voz da UNESCO e em comunicado alertou que o património iraniano “pertence não apenas ao povo iraniano, mas a toda a humanidade”. Apontou o dedo à atitude dos EUA no conflito realçando que “a destruição do património cultural é irreversível […] Nenhum objetivo militar ou político justifica a destruição intencional ou negligente da herança comum da humanidade”.
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